Como preparar a sucessão empresarial é tema de evento para mulheres empreendedoras
Assumir um negócio não é apenas ocupar um cargo, mas sustentar uma história, dar sequência a relações construídas ao longo do tempo e encontrar o próprio espaço em um ambiente que já existia antes. Esse foi o tom do encontro Entre Elas, realizado na quinta-feira, 09/04, na sede da Câmara de Dirigentes Lojistas de Sapiranga (CDL Sapiranga). Promovido pela entidade por meio da CDL Mulher, o evento reuniu empreendedoras para uma manhã de escuta, identificação e troca, tendo como eixo a sucessão em empresas familiares a partir de experiências reais.
Na
abertura do encontro, a coordenadora da CDL Mulher Sapiranga, Ana Paula
Dorscheid, destacou que esse movimento é parte essencial da construção do
ambiente que o Entre Elas busca proporcionar.
Nosso
objetivo é justamente acolher essas diferentes fases, entender as demandas e
oferecer conteúdos que façam sentido. Quando falamos de sucessão, por exemplo,
estamos lidando com várias gerações ao mesmo tempo, compartilhando desafios e
expectativas. Os temas são pensados para inspirar, trazer orientações práticas
e contribuir de forma direta para o desenvolvimento dos negócios e das
lideranças femininas.
Convidada
desta edição, Vera Lúcia Gonzalez conduziu a reflexão a partir da própria
trajetória, marcada por escolhas que passaram, primeiro, pela construção de
autonomia fora da empresa da família. A experiência em comércio exterior, a
atuação em logística internacional e os desafios enfrentados em um mercado
predominantemente masculino ajudaram a formar a base que, mais tarde,
sustentaria sua entrada no negócio do pai.
Meu
pai sempre teve esse cuidado de não me colocar de forma automática dentro da
empresa. Antes disso, eu fui buscar meu caminho, estudei comércio exterior, fiz
estágio na Receita Federal e tive a oportunidade de trabalhar com logística e
transporte internacional, atendendo operações de importação e exportação em
várias regiões do Brasil. Foi uma fase de muito aprendizado, mas também de
muitos desafios, porque era uma área bastante masculina. Quando surgiu a
possibilidade de trabalhar com ele, eu entendi que precisava entrar como alguém
disposta a aprender, e não apenas como filha do dono. Comecei praticamente como
estagiária, mesmo já tendo bagagem, e isso fez toda a diferença para que eu
construísse meu valor técnico e conquistasse meu espaço com seriedade.
Hoje,
à frente da Fitotrade International, a palestrante lidera uma operação voltada
ao desenvolvimento e comercialização de produtos no mercado internacional. Ao
trazer um dos episódios mais marcantes da sua caminhada, Vera também expôs o
lado mais sensível da sucessão. Pouco tempo após a perda do pai, foi no
relacionamento com os clientes que encontrou um dos sinais mais concretos de
continuidade.
Logo
depois do falecimento do meu pai, eu estava em uma feira em Dubai, atendendo no
estande, quando um cliente muito importante se aproximou. Naquele momento, eu
precisei me retirar por alguns minutos, porque a emoção veio muito forte.
Quando voltei, eles me disseram que estavam ali para reafirmar que continuariam
fazendo negócios conosco, porque o meu pai sempre deixou claro que a empresa
teria continuidade. Aquilo me deu muita força. Hoje, cerca de 80% dos nossos
clientes são os mesmos que foram construídos por ele, pessoas que confiaram no
trabalho e permaneceram conosco nesse processo relatou.
Por
fim, a palestrante deixou um recado direto às famílias empresárias sobre o
papel de quem transmite e de quem recebe o negócio. Segundo Vera, a sucessão
precisa ser entendida como um processo de construção conjunta, em que a
experiência de quem já percorreu o caminho orienta, mas não limita, a atuação
das novas gerações. O desafio está em encontrar o equilíbrio entre legado e
renovação, permitindo que o novo entre com espaço, mas em sintonia com os valores
que sustentaram a trajetória da empresa até aqui.
Redação: Marcelo Matusiak
